segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ciúme.

Pego a tinta,
a derrubo sobre o pano branco...
pinto um futuro, 
meretriz e um melhor,
um batom,
uma evidência, 
um sentimento.
Eu traço as cores de um desalento,
de um descontento
sobre um alguém.
Escrevo uma história, 
um quadro sem mim,
de descuido e de dor.
Que nada!
É mais essa história de um desamor.

domingo, 29 de abril de 2012

Sé.

São esses amores, que duram nada mais que algumas horas,
são essas pessoas que nos encantam pelo cruzar de pares de olhos
perdidos num vagão de metrô.
São vinte minutos até próxima estação e é tudo que se tem.
Os olhares e os pares de minutos, não muitos.
Cada instante é único,
cada movimento é uma lembrança que fica desse amor passageiro,
amor de uma noite, amor de uma viagem.
Encanta, marca, embriaga.
E num piscar, ele se vai.
Desce na estação da Sé e se perde na multidão.
E o perfume fica, fazendo companhia as imagens,
daquilo que não se viveu.
Que vive na saudade e nos planos daquele romance,
de vinte minutos,
que em sua cabeça será de um mês, alguns anos...
dará frutos e vestidos brancos,
rendas e balanços.

Mas ficou ali, parado.
Na Estação Sé do metrô.


sábado, 21 de abril de 2012

Acômodos

Invejo hoje em dia quem tem essa disposição de aproveitar a vida,
disposição de quem nasce agora pronto pro mundo e quer engolir tudo de uma vez.
Nasci agora, desaprendi a andar pelas próprias pernas e agora engatinho
e não pensei que seria algo tão ingrato. 
Ressurgi com a impaciência de quem já errou demais em outras vidas e não quer mais pisar em ovos. 
Renasci velha, com braços e pernas doloridos por cansar de andar errante por aí,
deixando o acaso domar o seu tempo e seus dias. 
Estou aqui, de volta a esta terra infeliz para tomar o meu tempo e domá-lo
para vingar este que me matou. 
Quem me enganou oferecendo-me o ócio, na ilusão de que gozaria mais.
Sem planos e projetos, deixando o nada esparramar-se 
por cômodos adentro, que de pouquinho em pouquinho foi substituído 
por desordem, monossílabos falsos, silêncio perturbador.
Ainda com as ventanas abertas, a algazarra não ousa a entrar
não consegue tomar este espaço deixado,
que eu tive que voltar para buscar.