Esfregava a mão ao rosto, com força e repetidamente. Como quem quisesse limpá-lo, quase causando feridas. Como queria apagar seus traços de sua própria face.
Por não aguentar o peso das lembranças, o peso do tempo sobre suas costas.
Sem dar-se conta, flagelava seus dedos, ao som da mesma música, aquela que o transportava para outra dimensão, imerso em seus pensamentos só retornava ao sentir o sangue escorrendo de seus dedos, porém não conseguia parar aquela sensação de montar sua vida a sua vontade, do modo que bem gostaria ao som daquilo que o fazia desfalecer, era irresistível.
Horas antes, saiu em fuga, poderia andar, mas decidiu gastar seus últimas moedas na passagem de um circular, para dar uma volta em seu bairro. O balanço do ônibus velho e a gritaria em volta não incomodava, só queria olhar a noite as luzes daquelas casinhas, umas empilhadas em cima as outras. Observava o filme mudo a sua volta, todos aparentemente felizes, conversando na volta de um domingo a noite, não se sentia bem, não se encaixava. Então assim preferia continuar olhando as luzes pela janela, punindo seus próprios dedos por isso, arrancando sua própria carne e voando entre aqueles becos.
Era visível o sangue sobre o esmalte ruído.
Que prazer imensurável aquilo lhe dava.