segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Quanto de verdade?

Não sei se não consegui dormir pelo susto ou pela insônia por si só.
Não sei se isso que sinto é uma dor, um incômodo e esse não saber é tão ruim.

Eu li em algum lugar que ás vezes não nos importamos com ninguém, apenas com a sensação que as pessoas trazem a você. Talvez isso se aplique um pouco a mim agora, ninguém me conquista o suficiente pra eu não ir embora. Mesmo quando já fui ainda me impressiono com determinadas atitudes, por justamente ser o contrário daquilo que esperava. Então não é dor, não é incômodo e sim uma surpresa infeliz.

Me preocupa essa frieza, de verdade. Também me pergunto se me aceito assim, fria, ou se tento me enganar e me passar por cativada. Quando na verdade, eu realmente não estou me importando.
Há pessoas que nasceram pra ser sozinhas? Ou pelo menos cercada por uma multidão, mas se sentindo sozinhas?

Invejo esses que conseguem estar sempre rodeado de pessoas e nas fotos estão felizes.
Vejo uma foto, vejo um suposto casal e começo a analisar a imagem, as expressões. Me lembro de Barthes falando em seus textos sobre fotografia, que quando alguém tira um retrato seu, além de uma parte sua se tornar imortal e ao mesmo tempo morta, criamos um personagem que ficará ali, empalhado e exposto aos julgamentos da sociedade. Agora volto para aquela foto do casal e vejo um rapaz inflado, que não olha para a garota que está ao seu lado, apenas para a câmera como quem estivesse orgulhoso do troféu que carrega e a garota com um sorriso estampado, feliz da vida, provavelmente não reparando no abismo entre a postura dos dois. Cada um em seu mundo.

Vejo outra foto, de outras pessoas, um outro casal, estes se agarram.
Como se fossem cair na imensidão do mundo.
Me pergunto o quanto de verdade vejo em tudo isto, quanto de verdade há nessas imagens?
E se devo me abater com elas...



terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Eu me sinto infinito"

Há três anos atrás eu segurei na mão de um rapaz depois de uma briga e saímos correndo pela Avenida Paulista, atropelando tudo e todos, rindo muito... Como nos filmes. Como se fossemos jovens, ali e pra sempre. Foi uma cena bonita, só não era eu ali. Percebi que vivi uma cena, mas somente encenei.
Mas ultimamente, apesar dos meus vinte anos e das milhões de crises que passei e sigo passando, cheguei a comentar com alguns que nunca me senti tão jovem quanto agora. "Mas como assim?", eu não sabia explicar essa sensação estranha de se sentir vivo independente de estar feliz ou triste. É como tentar explicar o porquê de uma foto atrair seus olhos ou aquela música te dar arrepios.

E agora, quatro da madrugada de uma terça-feira, quando deveria na verdade estar dormindo para acordar dentro de uma hora e meia, encontro a definição de isso tudo que senti nos últimos tempos em uma página do livro "As vantagens de ser invisível". Fui forçada a parar minha leitura e escrever isto para registro meu, tanto que vale a pena eu pegar este trecho do livro por mais infeliz que seja a tradução que estou lendo.

"E por fim ele encontrou esta canção realmente maravilhosa sobre um cara, e nós ouvimos em silêncio.
Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:
'Eu me sinto infinito.'

E Sam e Patrick olharam para mim e disseram que foi a melhor coisa que já tinham ouvido. Porque a música era ótima e porque estávamos prestando muita atenção nela. Cinco minutos de toda uma vida tinham passado, e nós nos sentíamos jovens de uma forma legal. Eu cheguei a comprar o disco, e contaria a você como foi, mas na verdade não foi o mesmo que estar em um carro a caminho de sua primeira festa de verdade, e você está sentado no meio da picape com duas pessoas legais quando começa a chover."


sábado, 6 de outubro de 2012

Aquele do último trem.

Completamente alterada pelo gosto da adrenalina, misturada com a sensação 
de leveza depois de alguns copos de cerveja. Essa era eu correndo pelos corredores atrás 
do último trem ao lado de quem sempre me faz nascer, morrer e me sentir mais jovem com apenas um olhar.
Andamos com o trem em movimento procurando o dois lugares mais próximos, e sentamos entre dois estranhos, em uma sequência de quatro lugares.
Ou seja, outros ali escutariam nossa conversa.

- Eu te odeio, como eu te odeio por me fazer passar por isso.
- Era necessário, você sabe o que iria acontecer se nós recuássemos. Lembra o que eu sempre digo sobre recuar?
- Ainda assim eu te odeio.

Eu só conseguia rir olhando aquela cena no reflexo da janela em frente, imaginando o quanto aquilo tudo caberia dentro de uma série ou filme. Também observei que os dois estranhos ao nosso lado tiraram seus fones de ouvido para ouvir nossa discussão, na verdade um monólogo porque eu não conseguia prestar muita atenção no que ele dizia, só conseguia pensar que se a ordem dos acontecimentos fosse outra eu poderia não estar naquele trem, nem ao lado dele.

- Eu não imaginava essa sua reação, achei que você fosse surtar ou fugir...
- Eu te amo.

Nos beijamos e desembarcamos na estação, pra infelicidade de quem acompanhava nossa conversa.
E seguimos correndo para tentar chegar em casa.